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História do Tempo Presente: o dever da memória

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Daniella Andrade e Iago Rezende

O dever da memória, a necessidade de trazer à tona questões que ainda permeiam a vida contemporânea, a “história em aberto” e o “nosso próprio tempo” são algumas das definições da História do Tempo Presente. Estudiosos como Eric Hobsbawm, Marina Franco & Florencia Levín e Julio Aróstegui são alguns dos teóricos que aprofundaram a historiografia na construção da teoria do Tempo Presente.

Para alguns historiadores brasileiros, há muita dificuldade na construção da História do Presente, pois lidam com uma história ainda sem fim, na maioria das vezes, com pessoas que ainda estão vivas, que podem relatar, denunciar e esclarecer partes do fato. Esse é o ponto mais frágil. Para o Professor Titular de História do Brasil da UFRJ, Carlos Fico, o historiador do Tempo Presente enfrenta cobranças que outros colegas de história medieval, antiga, moderna, desconhecem: a contestação daqueles que passaram pelos episódios contados.

Narrar histórias que ainda “não terminaram” traz problemas para a teoria, na opinião do teórico Leopold von Ranke. Para ele, o tempo presente passa pela “ausência de recuo temporal e tornaria impossível uma análise imparcial”, ou seja, o relato do historiador seria parcial, assim como o testemunho de pessoas que viveram o fato, pois se envolvem novamente com o ocorrido.

A partir desse pressuposto, a Comissão Nacional da Verdade, instituída no ano de 2012, tem a finalidade apurar as graves violações dos Direitos Humanos ocorridos no período entre 1946 a 1988, que inclui a ditadura militar (1964-1985), e pode ser vista como uma busca da História do Tempo Presente. O regime militar no Brasil foi considerado a “ditadura documentada”. A CNV suscita assuntos a partir do depoimento de pessoas que sofreram na época da ditadura, a fim de tomar as devidas medidas contra repressão política e violação aos direitos humanos. Esta comissão, junto à imprensa, tomam partido para resgatar e averiguar documentos da época que norteiam o assunto.

A partir das apurações desta comissão, a reafirmação dos direitos humanos e a luta contra a violência política não se restringem à condenação política ou jurídica, mas sim a justiça e a reafirmação da democratização de um tempo obscuro.

Audálio Dantas é considerado um dos maiores exemplos de colaboradores na formação da história contemporânea por sua constante luta a favor da liberdade de imprensa, retratando também os ocorridos na Ditadura Militar. Lançou o livro As Duas Guerras de Vlado Herzog (Civilização Brasileira), que retrata a trajetória de vida de Vladimir Herzog, contando como o jornalista foi vítima dos nazistas na Iugoslávia, nos anos 1940, e das forças de repressão da ditadura militar brasileira, que o mataram em 1975.

Em entrevista, Audálio comenta sobre a estruturação e importância da Comissão da Verdade.

Iago: Audálio, qual é a importância da compreensão da gravidade da ditadura na luta contra a violência política?

Audálio: A compreensão de que a ditadura exerceu um papel negativo foi clara e levou uma geração inteira ao silêncio. Esse é um fato determinante da necessidade que temos hoje em recomeçar o que gerou um enorme atraso em todos os setores do Brasil, desde o setor econômico, social, político e cultural. Por isso, as nossas novas gerações têm o dever de se informar sobre o que aconteceu e lutar para que não aconteça de novo.

I: E o que pode ser mudado a partir das alterações da comissão da verdade?

A: Desde já, a instituição da comissão da verdade tem o sentido de importância na medida em que traz de volta o debate em torno dos crimes ocorridos na Ditadura Militar. Quando se diz que ela não tem o direito de punir, e realmente não tem, isso pra mim não tem a menor importância. A importância pra mim está em buscar de maneira mais profunda a apuração da verdade e a execração ocorrida.

Confira a entrevista de Audálio Dantas no Jornal da Gazeta sobre os crimes da ditadura.

Para mais informações sobre a Comissão Nacional da Verdade, acesse:

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Falha Nossa: seria mesmo um mal entendido?

Filipe Monteiro

Por que será que sempre quando estamos sob pressão, estressados, ou, até mesmo, distraídos, temos a estranha tendência em trocar o nome das coisas, falar o que não devemos, ou dizer o exato oposto do que pensamos em falar? Este inusitado fenômeno não é novidade para ninguém. Há quem diga que tudo não passa de uma confusão das ideias, outros afirmam que há um motivo por trás do erro. Quanto ao conceito principal, Freud explica.

Reprodução: Google Imagens

Um dos casos mais polêmicos foi a falha cometida pelo tucano José Serra, na ocasião candidato à presidência do Brasil. Em campanha, Serra afirmou “eu nunca disse que sou contra o aborto, até porque sou a favor”, querendo dizer exatamente o contrário. Segundo o peessedebista, a ocasião não passou de um mal entendido.

Outro caso bastante comentado foi o episódio em que a jornalista Ana Paula Padrão, apresentadora do Jornal da Record disse ao vivo da cerimonia de abertura dos jogos olímpicos de Londres: “você está assistindo o Jornal da Globo”. Para muitos isso tudo não passou de uma confusão de palavras. É o que também pensa a aposentada, Marlene Lapa, 74. “Na hora da confusão, a razão fala mais alto. Eu acho que quando isso acontece, é apenas uma confusão de palavras. Nada além disso”, comenta.

Uma nova perspectiva

Reprodução: Café com versos

A compreensão dos estudos acerca do ato falho pode ser de suma importância em vários setores, seja na análise de mídia, análise política, na educação ou até mesmo na rotina diária.

A professora Soraya Farias, especialista em psicopedagogia pela Universidade Severino Sombra, destaca a importância da aplicação da psicologia nas relações com as crianças. “Todo mundo está sujeito a dizer as coisas sem pensar, mas com crianças isso ocorre com uma frequência maior. O papel do psicopedagogo é escutar tudo o que se tem a dizer com atenção e transmitir confiança, assim o aluno poderá se abrir e dizer os problemas que normalmente não diria a um professor. Dessa forma pode-se trabalhar o problema”.

Quanto à percepção das atitudes dos estudantes, Soraya ainda lembra: “Ao conversar com a criança, deve-se tomar o cuidado de adequar a linguagem usada. Não se pode tratar a criança como um adulto, mas tratá-las como bebês também não é eficaz. Uma simples análise de palavras ditas e atos pode ser suficientes para ter uma noção do que a criança vive em casa ou na rua”, afirma.

Falar com calma, organizar ideias, e prestar atenção no que se diz podem ser alternativas eficazes na elaboração de um discurso coerente. O que não se pode esquecer é que todos estão sujeitos a cometer falhas ou deslizes na hora de se expressar. Coincidência? Talvez. Confusão? Não se sabe. Isso tudo pode ser uma boa peça pregada pelo inconsciente. Em meio a tantos pensadores e cientistas, a afirmativa mais válida talvez venha da boca de um sábio garoto mexicano: “foi sem querer querendo”.

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Jornalismo Científico

Este blog tem por objetivo apresentar a produção dos alunos do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto na disciplina eletiva Jornalismo Científico.

Durante um semestre, a turma irá refletir, discutir e escrever sobre Ciência, Tecnologia, Inovação e seus subtemas, de modo a se familiarizar com o campo de atuação e ampliar as habilidades em jornalismo especializado.

Clique aqui para conhecer o programa da disciplina.

Comente, questione, participe e colabore com o processo de aprendizado desses jornalistas científicos em formação!

Verônica Soares da Costa

Professora do curso de Jornalismo da UFOP

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