Arquivo da tag: embrionárias

Células-tronco: a carta coringa do nosso organismo

Bárbara Monteiro e Roberta Nunes

E se o corpo humano pudesse ter uma peça curinga que se encaixassem  para suprir qualquer necessidade do organismo? As células-tronco são o alvo desta esperança. Como  elas dão origem a todas as outras células e  não têm função específica, podem  sob algumas condições  ser estimuladas a formar tecidos especializados, até mesmo órgãos que foram danificados por diferentes patologias.  Apesar de parecer uma solução milagrosa, é preciso cuidado pois os pesquisadores alertam que não há testes com células-tronco em humanos para todas as doenças, e os que existem devem ser de graça.

Para que servem?

Nos dias atuais as células-tronco têm diversas funções, a principal delas é a recuperação de um tecido lesado por dano ou trauma. Segundo  a biomédica  Ariany Oliveira Santos, do Instituto Estadual de Hematologia Arthur de Siqueira Cavalcanti  (Hemorio), o organismo tem naturalmente um sistema de reparo tecidual espontâneo, porém em algumas situações patológicas esse reparo não ocorre, e é nessa situação que as células-tronco são importantes, pois tem a capacidade de regenerar esse tecido danificado e restaurar sua atividade fisiológica. Por exemplo, no caso de doenças degenerativas, como a esclerose lateral amiotrófica, há degeneração e morte dos motoneurônios, levando a perda progressiva da função motora, nesse caso um tratamento com células-tronco poderia reverter a doença, se as células se diferenciassem em neurônios motores substituindo aqueles que se degeneraram.

De acordo com o Centro de Criogenia do Brasil, as células-tronco podem ser usadas para recuperar doenças derivadas do sangue, tais como: Leucemias e demais anemias.Outras doenças estão em fase de pesquisa, apresentando resultados surpreendentes, como:

A doenças já são tratáveis, entre as mais conhecidas  estão os linfomas, as leucemias, as de falência medular, as metabólicas e as imunológicas.  Entre 1988 e 2012, foram realizados, em todo o mundo, mais 20.000 mil transplantes com sangue do cordão umbilical, sendo realizados aproximadamente 80 transplantes no Brasil em 2011. As pesquisas continuam. Abaixo  um gráfico sobre 166 ensaios de possíveis doenças que podem ser tratadas com células-tronco do sangue do cordão umbilical.    

Reprodução: Corvida

Tipos de células-tronco

1. Células-tronco embrionárias: As embrionárias são  encontradas no 5º dia após a fecundação,  e possuem a capacidade de se tornarem qualquer tecido do corpo humano. Isto as torna uma fonte enorme de potencial terapêutico. Entretanto, as células-tronco embrionárias são, sob o aspecto ético, uma fonte de tecidos polêmica para transplantes em seres humanos, porque implicam na destruição de embriões. Embora apresentem esta importante capacidade, as pesquisas com estes tipos de células estão indisponíveis e estão em fase de pesquisa, segundo Liliana  Acero,  doutora em Ciências Sociais  na University of Sussex,  pós-doutora  pela  Universidade de Massachussetts-at-Amherst  e professora visitante da Universidade Federal Rio de Janeiro.

A coleta e armazenamento das células-tronco embrionárias muitas vezes é relacionada com os transplantes. Muitas pessoas no Brasil e no mundo precisam deste serviço, e as células-tronco seriam uma opção para armazenar suas próprias células e aumentar a chance de cura.

2. Células-tronco adultas são extraídas de diversos tecidos humanos, tais como, medula óssea, sangue, fígado, cordão umbilical, placenta. Geralmente são retiradas do próprio paciente e o risco de ocorrer rejeição é consideravelmente baixo. A desvantagem em relação ás embrionárias é que sua a capacidade de se diferenciar em células do corpo humano é menor, explica Guilherme Gatti,  biomético do Centro Universitário Central Paulista (Unicep) e bolsista pesquisador do Laboratório de Biologia Molecular da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).  O Brasil é o primeiro país da América Latina a permitir o uso deste tipo de células, desde maio de 2008, quando o Supremo Tribunal Federal autorizou as pesquisas.  O país foi a quinta nação do mundo a produzir células-tronco pluripotentes induzidas, que podem se transformar em qualquer célula sem ser criada a partir de embriões. Por esse motivo, vários estudos caminham para o uso das chamadas células-tronco adultas.

Classificação das células-tronco

As células-tronco são classificadas de acordo com sua capacidade de regeneração, segundo o biomédico Guilherme Gatti, do Centro Universitário Central Paulista (UNICEP) e bolsista pesquisador do Laboratório de Biologia Molecular da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar),  “As unipotentes são células que se diferenciam em um único tecido. Já as pluripotentes são capazes de diferenciar-se em quase todos os tecidos humanos, excluindo a placenta e anexos embrionários. E por fim, as totipotentes, diferenciam-se em todos os 216 tecidos que nós humanos possuímos, incluindo a placenta e os anexos embrionários”, conclui.

Banco de células tronco

O primeiro  banco de sangue de cordão umbilical no Brasil, que é das células-tronco adultas, foi a Cryopraxis, criado em 2000, sediado no Rio de Janeiro.  Ao todo, no país,  foram armazenadas cerca de 45.7 mil unidades de sangue de cordão umbilical, de acordo com dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) até 2010.

Porque armazenar células do cordão umbilical ?
Em entrevista ao blog Científico Jornalismo, Aryane Oliveira Santos esclarece a importância e razões de armazenar células do cordão umbilical. A pesquisadora é graduada em biomedicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro,  mestranda em biologia celular e molecular pela Fundação Oswaldo Cruz-RJ e atua no  Instituto Estadual de Hematologia Arthur de Siqueira Cavalcanti (Hemorio).

Um dos grande problemas encontrados em transplantes no geral, é a rejeição. Nosso organismo tem um sistema de defesa que reconhece tudo que lhe é estranho, então nos transplantes, seja de órgãos ou células, há o reconhecimento desse material transplantado como estranho, já que o doador e o receptor do transplante são pessoas diferentes, e consequentemente ao haver esse reconhecimento, as células de defesa destroem esses órgãos ou células transplantadas, o que torna o transplante ineficiente. O cordão umbilical é extremamente rico em células-tronco, uma vez congelado, estas células vão permanecer viáveis por muitos anos, sendo assim, quando o individuo em sua vida adulta precisar de suas células-tronco umbilicais que foram armazenadas no momento do seu nascimento, estas células poderão ser injetadas nesse individuo, sem que haja nenhum risco de rejeição, já que as células transplantadas são as células do próprio individuo, a esse processo denominamos transplante autólogo ( doador e receptor do transplante é o próprio indivíduo)

Público x Privado

No caso dos bancos públicos, as células-tronco do cordão umbilical são doadas para serem armazenadas em uma instituição pública. Isso implica na possibilidade de utilização destas células para qualquer pessoa que precisar de um tratamento. As células-tronco umbilicais coletadas em bancos de sangue privados servem exclusivamente para uso pessoal de doenças que possam acometer a pessoa. Nesse sentido, o discurso de tais instituições se baseia na segurança em oferecer uma nova alternativa preventiva a doenças que possam ser ser contraídas futuramente. Segundo o site da empresa Cordvida, referência em  armazenamento de células-tronco, familiares também podem ser beneficiados.

Liliana Acero,  doutora em Ciências Sociais, contraria algumas empresas privadas que fazem uma publicidade enganosa. Ela declara que ainda o banco privado não é muito eficaz.  Ela explica que no banco privado se paga  um valor por ano como garantia de um tratamento, caso necessário. Mas,  este sangue  tem restrições. “Se você tem uma doença transmissível, não pode usar. Só pode usar para  poucas doenças e enquanto se é jovem porque são recolhidos sangue para alguém com no máximo 50 kg. Além disso, a lei brasileira não permite  o uso para um familiar, restringindo apenas para a  pessoa”.

“Eu tenho um neto e meu filho queria fazer armazenamento de células-tronco, mas eu recomendei para não fazer. Mostrei para ele que além de ser caro  são  para poucas doenças que isto funciona”.   A pesquisadora também declara que caso necessário,  no banco público,  se pode apropriar de outras células-tronco, assim como a escolha de armazenar servir para outras pessoas.” complementa Liliana Acero.

Políticas Públicas

Em entrevista ao Blog Científico Jornalismo, a  pesquisadora Lilian Acero, coordenadora do projeto de pesquisa  Govcel “Desenvolvimento de Capacidades para a Governança: Visões Sociais e o Debate sobre Células Tronco no Brasil”   numerou algumas reflexões sobre as políticas públicas de células tronco no nosso país.

  1. Consulta pública: A falta de interação entre a sociedade pode prejudicar as pesquisas. Se a população for consultada sobre as questões das células-tronco os avanços poderiam ser mais rápidos e eficazes.

  2. Informação à  sociedade – Necessidade de divulgar as informações sobre células-tronco para a população, e não apenas disseminar conteúdo entre cientistas.   Fomentar a participação da sociedade, com  interatividade entre os  próprios pacientes pode ser uma alternativa. É  importante a representação  de grupos sociais, além da instância religiosa, como os indígenas, os grupos  feministas e outros níveis da sociedade.

  3. Plataforma tecnológica:  Uma plataforma para  proporcionar e criar  processos até que  as pesquisas se  tornem uma terapia e cheguem a clínica, a quem precisa. As células para a pesquisa não são as mesmas que a da terapia.

  4. Nível de investimento: Necessidade de que se mantenha os investimentos, mesmo que os  recursos sejam  altos  internamente no país. É preciso também repensar o investimento de  capital privado.

Originalmente o contexto cultural do Brasil influenciou bastante as pesquisas de células tronco. Em 2005, quando houve a aprovação da Lei da Biossegurança, foi complicado porque tinha muita imposição sobre o uso de células-tronco embrionárias. Os empasses  estavam liderado por grupos tanto de católicos quanto de evangélicos e ainda de cientistas. Daí para frente teve outro problema, a população não está muito informada das mudanças que estão havendo. A nível mundial as terapias celulares, algumas são bem antigas no Brasil também, estão muito avançadas,  mas não há muita informação sobre o que está sucedendo. É preciso mais informações para a população e não apenas de cientista para cientista.  A Anvisa tem tentado regulamentar a  relação da pesquisa se efetivar  para a clínica, saindo dos papeis e se tornando tratamento.   

No Brasil pessoas que tiveram problemas de repente, como acidentes, tem ido fazer tratamentos na China. É muito preocupante pois além do gasto altíssimo que a pessoa tem. Os tratamentos são vendidos como terapia,  mas  não passam de ensaios e ninguém sabe a procedência. Outro problema, é que se alguém provar que alguém  fez um tratamento fora do país, e o problema foi resolvido, entra a questão de que o Brasil deveria disponibilizar o tratamento e de graça.

Pesquisas

A biomédica  Ariany Oliveira Santos em entrevista ao Blog, também informa sobre as pesquisas no  Brasil. Segundo ela, o  Ministério da Ciência e da Tecnologia, o Ministério da Saúde e agências de financiamento têm investido substancialmente nas pesquisas com terapia celular, atendendo assim a um dos requisitos para que o país continue competitivo nessa área. Como resultado desse investimento, o Brasil nos dias atuais é considerado  um país que entra para a mesa dos países com pesquisas de alto nível como, Estudos Unidos, Alemanha, Inglaterra.

“Há diversas instituições, no Brasil, que estão investindo pesado nesse setor, como o Hemocentro de Ribeirão Preto, USP, UFRJ, UFPR, entre outras, que elevam a qualidade das pesquisas e produzem resultados promissores para as terapias com células-tronco. Um desses resultados promissores foi alcançado por pesquisadores da USP no ano passado, eles conseguiram, com o transplante de células-tronco, reduzir os sintomas da distrofia muscular de Duchenne, uma doença neurodegenerativa na qual os portadores vão perdendo a capacidade de andar com o passar dos anos. O transplante não gerou novos músculos sadios,  mas parece ter criado condições mais favoráveis para a preservação da funcionalidade da musculatura já existente” completa.

Valores 

A  empresa Cryoprax informou por telefone  que para fazer a coleta do sangue do cordão umbilical  o curto é R$ 3.660. Após este processo, anualmente a taxa é de R$ 621.

Histórico das células-tronco Dr. Tsutomu Higashi, médico patologista e pesquisador ortomolecular, explica a evolução histórica das células-tronco.

Saiba mais

Como funcionam as células-tronco

C élulas-tronco

Pesquisadores do Rio desenvolvem tratamento com células-tronco para tratar de fraturas

Anúncios
Etiquetado , , , ,