Arquivo mensal: janeiro 2013

A sorte está em suas mãos, ou nas ferraduras!

Nathália Souza

A atribuição deste signifiFerraduracado é muito antiga e tem um fundamento bastante palpável: antigamente, quando alguém achava uma ferradura era, de fato, muito boa sorte porque podia dirigir-se ao ferreiro da aldeia e trocá-la por dinheiro. Com o passar dos séculos o significado prático passou a simbólico e a ferradura tornou-se um poderoso talismã, frequentemente inscrito com símbolos mágicos e usado para atrair sorte e prosperidade.

Considerada por muitas pessoas um amuleto ligado à sorte e felicidade, acredita-se que a ferradura protege contra mau-olhado e desgraças. Ela está ligada a uma crença que vem desde a Grécia Antiga: os gregos tinham o ferro como um elemento que afastava o mal e acreditavam que a Lua Crescente afugentava a infertilidade e a má sorte. Alguma semelhança com a ferradura? Na mosca.

Nas Ilhas Britânicas da Idade Média, onde o medo de bruxaria era intenso, as pessoas penduravam as ferraduras nas portas. Vinculou-se também a crença de que bruxas tinham medo de qualquer coisa ligada a cavalos. Achar uma ferradura que já havia sido usada por um cavalo era tirar a sorte grande.

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Já os cristãos europeus acreditavam em São Dunstan de Canterbury, monge e arcebispo inglês, cuja lenda fala que ele teria colocado ferraduras no próprio demônio e as retirou somente depois de ouvir a promessa de que ele nunca mais se aproximaria do objeto. Daí, o costume da maioria dos católicos de colocar uma ferradura em qualquer cômodo da casa, principalmente na porta. A tradição manda colocar a ferradura no alto da porta, com as pontas viradas para cima, formato de U, senão, a sorte vai embora. Já em alguns países como a Espanha, acredita-se que a ferradura deve ser posicionada para baixo, para que a sorte se espalhe por toda a casa.

Nem todo mundo acredita em crendices como esta. Ainda mais quando se trata de objetos carregados de energias. Pois esse apego às coisas, dando a elas um poder e sentido, nada mais é que nossa mente querendo, de alguma forma, colocar o significado a objetos para se livrarem de problemas, situações desesperadas, medos.

Enio Florenciano, 72 anos, nunca colocou uma ferradura na parede ou atrás da porta, pois não acredita atrair sorte, mas conhece várias pessoas que acreditam e usam esse objeto, porém não sabe dizer se elas são ou não pessoas sortudas.

Se colocar uma ferradura atrás da porta traz ou não sorte, não é cientificamente comprovável, pois nosso poder mental é capaz de criar sensações boas ou ruins colocando em objetos, anseios e medos que o próprio cérebro desconhece. Por isso, quando quiser sorte, trabalhe em seu próprio destino, corra atrás de seus objetivos e não descarregue todos seus desejos em um simples objeto.

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Será tempestade em copo d’água?

Maysa Alves

Quem nunca ouviu de alguém que não pode tomar água após a ingestão de doces porque causa diabetes? Essa crença é reafirmada por pais e avós cautelosos que buscam livrar filhos e netos da doença. O doutor Pedro Pinheiro, do blog MD.Saúde, explica que vários fatores podem levar ao diabetes, principalmente obesidade e a predisposição genética. “Comer doces não causa diabetes, a não ser que o excesso de carboidratos leve ao sobrepeso. Do mesmo modo, comer chocolate, por si só, também não leva ao diabetes” afirma o médico em uma postagem que desvenda os mitos sobre a saúde.tempestade

Embora a história seja mito, é possível buscar uma hipótese que justifique como chegaram a essa conclusão. “Imagino que as vovós tiraram essa ideia do fato que o açúcar força o pâncreas a secretar mais insulina e, quando isso ocorre com frequência, pode levar ao esgotamento do pâncreas, causando o diabetes tipo 2”, comenta Maria Thereza Queiroz Palermo, médica pediatra de Franca/São Paulo. As pessoas com diabetes tipo 2 – aquele que começa na vida adulta, vulgo diabetes “do idoso” – podem não apresentar sintomas por muitos anos. “O diabetes de tipo 2 mesmo intitulado assim, não é só do idoso, na verdade é o diabetes do obeso ou do erro alimentar” completa a doutora Maria Thereza.

“Temos que levar em conta que ao tomar água, o excesso de doce na boca passa e isso permite que continuemos comendo mais porções, não é?” reforça Maria Thereza. Por isso vovós, não se preocupem tanto com o copo d’água, mantenham a vigilância para que as crianças não abusem na quantidade de açúcares e tenham uma dieta balanceada.

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Sorte, azar ou coincidência?

Laura Vasconcellos

Passar por baixo de uma escada vai te fazer mais azarado? Ou essa é somente mais uma das milhares de crendices espalhadas pelo imaginário social das pessoas?

Historicamente, essa crença tem origens bastante curiosas. No Egito, há 5.000 anos, uma escada encostada na parede formando um triângulo ou uma pirâmide (símbolo sagrado) poderia ser considerada um insulto calculado aos deuses. Posteriormente adaptada ao cristianismo, a lenda foi difundida com base na crença na santíssima trindade: Pai, Filho e Espírito Santo, associados às três pontas do triângulo, formadas pela escada e pela parede na qual estaria encostada. Passando por baixo da escada, o sujeito estaria rompendo a ordem e, assim, renunciando a religião.

Já durante a Idade Média, os castelos dos nobres eram cercados por grandes muralhas e fortalezas, que serviam para a proteção dos residentes diante dos ataques inimigos. Então, a única maneira de entrar nas mansões era usando escadas compridas e resistentes. Quando alcançavam o topo do muro, os invasores eram espantados pelos soldados de guarda com grandes baldes de óleo fervente, que queimavam inclusive quem segurava as escadas.

Com o passar dos anos, a história das escadas foi repassada de geração em geração, sendo modificada e atualizada. Hoje, a crença faz com que um grande número de pessoas evite passar debaixo de escadas, quase como um ato automático: “Se tiver como desviar, eu desvio, passo do outro lado da rua. Prefiro não arriscar. Melhor prevenir que remediar”, afirma Luciene Carvalho, 43 anos, vendedora.

Do ponto de vista do professor de música Ademar Nóbrega (1917-1979), no texto Superstições e Simpatias, publicado na Revista da Semana, em 1946, “a escada é a imagem da subida, da elevação, do acesso social, econômico e financeiro. Passar por debaixo de quem se eleva é simbolicamente renunciar, afastar-se de quem sobe, progride e vence. Decorrentemente, perde a boa sorte quem passa por baixo de uma escada”.

De acordo com o graduando em História pela Universidade Federal de Ouro Preto Wélington Silva, “pela definição, crendices são noções não baseadas em concepções racionais. O que equivale dizer que elas não possuem fundamentação científica que as comprovem”. O estudante afirma também que pode-se associar a formulação desse tipo de lenda a experiências vividas, que têm origem em momentos passados e nos fazem acreditar que a história consiste no que o homem faz e sofre, um decorrer de eventos que vão além da narrativa sobre o passado.

Para Wélington Silva, isso equivale a dizer que a relação entre causa e efeito não pode ser apreendida apenas no âmbito do real: “Estes traços que podem ser deixados do passado, como a ideia de que dá azar passar por debaixo da escada, podem ‘falar’ de formas de organização de algum tipo de sociedade”.

Portanto, para as concepções que vão além da mitologia, é importante atentar, principalmente, para a segurança de se passar por baixo de uma escada: objetos podem cair sobre os transeuntes a qualquer momento e esse é o único fundamento racional para se evitar cruzar com escadas no meio do caminho. Cuidado!

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Bruna Lapa

– Não coma isso menino, assim não pode! Manga com leite mata, sabia?

Que criança nunca se assustou com essas histórias de avó? Sorvete de manga então? Nem pensar! A história foi repassada de gerações em gerações. Há quem acredite piamente que a combinação é, de fato, prejudicial à saúde, podendo causar indigestão, mal estar, azia e até mesmo ser fatal. Outros já não acreditam, mas também não se arriscam.

Para a estudante de jornalismo Rosianne Silveira,19, manga com leite faz mal, sim! Aprendeu com Dona Amélia, 73, sua avó. “Minha avó sempre foi muito supersticiosa e eu sempre tive muito contato com ela, morei por um tempo na casa dela. Então passei a acreditar na maioria das suas superstições”. E lembra: “Ela sempre falou para todo mundo lá em casa que faz mal, desde nova escuto isso. Por isso nunca experimentei”. Nem em sorvete.

Na verdade, a ciência em geral discorda da crendice da vovó. O mito surgiu há séculos atrás, no período de escravidão no Brasil. Ambos os alimentos eram muito prezados pelos senhores de engenho e, por isso, foram eles que espalharam por aí que combinar manga com leite não daria certo. Tudo isso para evitar que os escravos, que trabalhavam muito e se alimentavam mal, roubassem as frutas das mangueiras da fazenda ou consumissem leite em grande quantidade.

Para o alívio dos amantes de doces com a combinação, a médica Daniele Góis, 30, não deixa dúvidas: “Não faz mal nenhum. Não há nenhuma evidência”. Ela explica que não apenas essa, mas a maioria das crendices populares surge da observação empírica de fatos. Por exemplo: um dia uma senhora comeu manga enquanto tomava leite e, por mera coincidência, sofreu um infarto. Para um observador a mistura foi responsável pelo ocorrido. Dessa forma podem surgir muitas crenças. Alguém acreditou e contou para mais alguém, que passou a história para o filho, que passou para o neto, e assim o mito seguiu e atingiu até a Rosianne, neta da Dona Amélia.

 

 

 

 

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Tomar banho após comer faz mal?

Lara Braga Pechir

Brasil. País tropical onde o sol predomina em quase todos os meses do ano. No verão, as temperaturas se elevam ainda mais, levando milhares de pessoas às praias na tentativa de se refrescarem do calor. No entanto, um mito perdura até os presentes dias: tomar banho depois de comer faz mal. Será que de fato entrar na piscina depois do almoço é perigoso? E nadar no mar após comer aquela moqueca? Faz mal comer uma feijoada e depois dar um mergulho?

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Foto: reprodução Google

Todos nós já escutamos essa crença e nos questionamos com a veracidade de sua determinação. Para discutir esse assunto, é necessário fazer algumas considerações: qual a quantidade de comida ingerida, temperatura da água, tipo de banho a ser tomado (imersão ou chuveiro) e a intensidade dos exercícios a serem feitos.

Durante a digestão dos alimentos, nosso estômago requisita uma maior quantidade de sangue para executar tal processo. Sendo assim, ao entrarmos na piscina (ou mar) de água gelada e nadarmos com uma intensidade elevada, nosso organismo precisará regular a temperatura do corpo e também mandar sangue para que os demais músculos sejam capazes de realizar suas funções. Um evidente colapso ocorreria e uma possível morte se ocasionaria caso a pessoa estivesse com o estômago cheio.

No entanto, um banho de chuveiro em temperatura ambiente logo após uma refeição não causa mal algum, uma vez que o corpo terá condições de conciliar suas funções durante a digestão, como se manter aquecido, irrigar o sangue por todos os músculos e digerir o que foi consumido.

Assim, cabe a cada um ter consciência do quanto comeu e o que fará logo após se deliciar com seu prato preferido. Sem excessos, é possível aproveitar suas férias nos clubes e praias sem que ocorram imprevistos.

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Crença sobre ação digestiva não tem embasamento científico

Carolina Lopes Brito

Conforme a sabedoria popular, tomar banho após o almoço faz mal. “Sempre ouvi falar que causa congestão. Então, é melhor não arriscar”, afirma o comerciante Vicente Mercês. Este processo ocorre quando a digestão é interrompida, por isso, supersticiosos acreditam que o ideal é descansar depois de refeições.

Mas, segundo Juliana Fontes, estudante do 11º período de medicina do Centro Universitário de Caratinga, isso é um mito. Após a alimentação, o corpo desvia o sangue para a região do estômago e para o sistema digestivo, para que a digestão seja mais efetiva e capte mais nutrientes para o corpo. Com isso, caso a pessoa faça exercícios físicos pesados, o corpo irá desviar o sangue para os músculos, havendo a sensação de indigestão.

“No caso do banho, é diferente, pois o corpo não interpreta isso como atividade física, a menos que a pessoa faça um esforço maior, como lavar vigorosamente os cabelos”, alerta a estudante. Caso seja feito algum esforço, podem ocorrer dor abdominal e sensação de estômago cheio, denominada empachamento.

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Vai uma vitamina de manga aí?

Gustavo Aureliano Silva

Durante anos, uma dúvida faz parte das crenças populares: chupar manga e beber leite ao mesmo tempo leva a pessoa à morte?

“Manga com leite faz mal menino!”. Quem nunca escutou essa frase quando criança? Ninguém, em sã consciência, ousaria combinar tais alimentos. Havia dúvidas que eram agravadas com relatos dos mais antigos, em que afirmavam que um conhecido de um conhecido já havia morrido ao desafiar as regras do saber popular. A história da manga e do leite é, talvez, umas das crenças mais efetivas e duradouras dos saberes populares brasileiros. Tudo começou com a avareza e superioridade dos grandes fazendeiros da época do Brasil Colônia.

Segundo o site “História de Tudo”, a explicação para o mito da manga com leite é que, no tempo dos escravos, os donos das fazendas faziam com que todos acreditassem que comer manga e tomar leite fazia mal, podendo provocar inclusive a morte. Como se sabe, um dos ingredientes mais empregados na alimentação dos escravos era o leite. Já as mangas, frutas originárias da Índia, eram consideradas nobres, sendo destinadas somente à elite da época.

Como as mangueiras eram abundantes nas fazendas, seria muito difícil controlar todos os escravos para que não ingerissem as frutas. Sendo assim, os senhores de engenho passaram a dizer que a mistura da manga com leite seria fatal, resolvendo, assim, com extraordinária eficácia, o “problema” dos escravos comedores de manga.

A combinação é inofensiva e muito nutritiva, sem risco algum para saúde. Seria mais fácil uma pessoa morrer levando uma mangada na cabeça, ou afogada em um balde de leite, do que bebendo uma boa vitamina de manga. A crença poderia ter se extinguido na época da abolição ou quando as mangueiras começaram a se propagar pelo Brasil. No entanto, muita gente ainda acredita e segue à risca esse mito do passado. E você, vai desafiar?

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Viviane Ferreira

Que mulher nunca ouviu a história contada e repetida por avós e bisavós de que se estiver menstruada não pode lavar cabelo, que se isso acontecer a pessoa morre, já que o sangue sobe para a cabeça?

Dona Regina lembra bem dos ensinamentos da mãe e de como a menstruação era tratada como um assunto proibido dentro de casa. “ Quando fiquei menstruada pela primeira vez, achei que estava morrendo, nunca tinham me contado que isso acontecia e era normal. Logo veio minha mãe dizendo que tinha ficado mocinha e que não poderia fazer um monte de coisas ‘nesses dias’. Não poderia de jeito nenhum lavar o cabelo”.

Essa crença do saber popular foi passada de geração em geração na família, que só depois de alguns anos se sentiu livre para lavar o cabelo no período menstrual.

Claro que pode lavar!

Segundo o médico José Tarcísio Buschinelli, a menstruação é algo absolutamente natural e a rotina da mulher pode continuar igual. O médico reforça a importância da higiene para melhorar o conforto e bem-estar durante a menstruação. “A mulher pode tomar vários banhos por dia e fazer o asseio com chuveirinho, além de ter o o cuidado de trocar o absorvente algumas vezes ao dia”.

O mito é associado à reposição hormonal: “As mulheres têm modificações no humor. Porque ela lavou o cabelo antes, os mais antigos associaram a mudança de humor à menstruação”, explica o médico.

“Nesse período as mulheres mudam o PH do couro cabeludo e isso aumenta a oleosidade dos fios”, conta o Doutor. Essas modificações acontecem porque, nessa fase, há uma queda na quantidade de hormônio feminino circulante. Sendo assim, a testosterona, que é hormônio masculino, pode atuar com maior intensidade, estimulando as glândulas sebáceas a produzirem mais óleo no couro cabeludo.

“Hoje em dia vejo como o mundo mudou, as pessoas estão bem mais informadas. As minhas filhas sofreram comigo por causa dessa crendice e minhas netas já não têm esse problema, até ficam rindo quando conto sobre essas casos”, diz Dona Regina, entre várias risadas.

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A antropologia por trás do popular

Yasmini Gomes

Há quem diga que os homens são os únicos seres vivos capazes de possuir cultura. A forma que celebramos o natal ou aniversários, a maneira que nos vestimos ou idolatramos ícones populares ou religiosos são hábitos que possuímos e que se diferem de região para região. No nordeste do Brasil, por exemplo, o frevo é um tipo de manifestação cultural através da dança com a utilização de pequenos guarda chuvas. Já no Espirito Santo, o Congado é um ritual que envolve música e fantasias coloridas.

Não tomar leite com manga, passar embaixo de escadas ou não pisar no frio quando sair do banho para que a boca não fique torta são crenças populares que sustentam ideologias de alguns povos. De acordo com Roque Laraia, autor do livro “Cultura: um conceito antropológico”, cultura pode ser considerada “todo o comportamento aprendido, tudo aquilo que independe de uma transmissão genética, como diriamos hoje”. Segundo ele, os hábitos citados anteriormente são o que pode-se chamar de cultura e o que faz um grupo ser diferente do outro, caracterizando-o e definindo sua identidade.

Esses hábitos são o que o autor chama de “ideais criados por uma determinada nação para se diferir das outras e se tornar única em meio as tantas existentes”. São verdades adquiridas ao longo dos anos, passadas através de uma tradição e sustentadas para validar a própria crença. “O homem (…) é o herdeiro de um longo processo acumulativo, que reflete o conhecimento e a experiencia adquiridas pelas numerosas gerações que o antecederam”, completa Laraia.

Uma avó, ao dizer para o se neto que o fato de sair do banho quente e pisar no chão gelado pode deixar a boca torta, na verdade quer poupá-lo de uma possível gripe. Em sua crônica “Manga com leite”, Alberto Villas fala sobre essas crenças, resgatando fatos de sua infância. Segundo o autor, sua mãe a avó utilizavam desses ditos populares como forma de manterem o controle sobre ele e as outras crianças da família, que obedeciam porque tinham medo de que algo ruim acontecesse. Ele lembra do episódio de tomar manga com leite. “Tínhamos tanto medo que não gostávamos sequer de ver um litro de leite Itambé perto de uma manga Ubá. Não era brincadeira, minha mãe argumentava com exemplos concretos de casos sobre filhos de amigas”.

Apesar de perpetuarem por anos em diversas culturas, a partir de uma análise antropológica, essas crenças são fatos, inventados ou não, mas que existem como parte de características de um grupo. Já para aqueles que acreditam, são valores que moldam e guiam o ser e o fazer das pessoas.

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“Deus querendo, até água do pote é remédio”

Iago Resende

Um cidadão ordinário qualquer sofre, ou pode sofrer, com pressões físicas e psicológicas diárias. Pior ainda quando tais pressões acontecem de forma simultânea, como o tersol. Trata-se de uma simples, ou não tanto, inflamação das glândulas que se alojam na margem palpebral. Uma complicação que bem pode ser resolvida a partir de procedimentos básicos, adquiridos em crenças populares.

Os conselhos de Maria da Penha Almeida Rezende, 62, são bem claros: “Basta aquecer uma aliança e passar em cima do tersol diversas vezes ao dia! A aliança forma um círculo e o terçol sai num pulo! E, aqui, o anel tem que ser de ouro tá!”.

Certas pessoas praticam o ato e, por mais que as explicações científicas provem o contrário, experiências pessoais garantem a funcionalidade da prática. De acordo com o médico oftalmologista Luiz Liarte, do Hospital de Olhos de São Paulo, a melhor solução é a compressa de água quente: “A compressa ajuda a dilatar as glândulas e a expelir o pus”. O oftalmologista recomenda a variação de compressas quentes e frias a fim de diminuir o inchaço e a vermelhidão do rosto ou região do olho atingido além de pomadas e colírios.

Com a comprovação de que o calor tem sua função científica, tal senso comum não se baseia somente na “fé” do praticante. O calor aplicado no local pode reduzir o processo inflamatório e provocar uma vaso-dilatação, agilizando o processo de combate à inflamação.

Existem, porém, riscos à saúde do indivíduo se a aliança não tiver sido esterilizada, o que ocasionaria uma possível infecção. De acordo com o depoimento de dona Maria, existem outras possíveis agravações “se a aliança utilizada não for de ouro ou pertencer a algum sujeito que não esteja casado”. Ainda segundo ela, a causa principal do tersol é negar pedidos a uma grávida. Uma lição de educação que pagamos à vista.

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