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Métodos Alternativos, mocinhos ou vilões? (Parte 2)

Nathália Souza Silva

O Doutor e Pós-doutor em Química Orgânica pela The Victoria University of Manchester, Inglaterra, e professor titular do Laboratório de Farmacognosia no Departamento de Farmácia, na Universidade Federal do Paraná (UFPR), Cid Ambiré de Moraes Santos, concedeu uma entrevista ao Blog Científico Jornalismo.

Nathália: O que são ervas medicinais?

Cid: A definição da Resolução RDC No. 14, de 31 de março de 2010 é a seguinte: Droga vegetal: planta medicinal, ou suas partes, que contenham as substâncias, ou classes de substâncias, responsáveis pela ação terapêutica, após processos de coleta, estabilização, quando aplicável, e secagem, podendo estar na forma íntegra, rasurada, triturada ou pulverizada; São plantas, caracterizadas botanicamente que contêm substâncias, ou grupo de substâncias, utilizadas para o tratamento de males e enfermidades que afetam o ser humano. Diferencia-se de droga vegetal, onde as plantas naturais são submetidas a algum tipo de processamento, como secagem, por exemplo.

Nathália: Quando elas são indicadas às pessoas?

Cid: Essa é uma pergunta complicada. No meu entender elas nunca devem ser indicadas para ninguém, pois as plantas (ou drogas vegetais) são constituídas de diversas substâncias que causam algum efeito tóxico, seja pelo conjunto de substâncias presentes ou por substâncias específicas. O que entendo por tóxico é apenas uma questão de dosagem, isto é, tudo é tóxico, mas pode ser benéfico se usado na dose (quantidade) correta. Há uma grande variação de constituintes conforme a estação do ano, a localização etc. Por isso, o que pode ser bom para um, não necessariamente é bom para outra pessoa. Na Farmácia defende-se o uso de extratos padronizados, com marcadores que irão estabelecer um padrão seguro para o uso das plantas medicinais. Os conhecimentos sobre plantas medicinais, passados de pai para filho, apenas contribuiu para o conhecimento atual sobre elas, mas não como indicação para uso como se não apresentassem nenhuma toxicidade.

Nathália: Quais seus benefícios e malefícios?

Cid: Isso depende de quais plantas você está falando. Não dá para dizer de forma geral. Há o benefício da facilidade de se preparar um remédio caseiro feito com algumas plantas medicinais que se encontra numa horta, por exemplo. No entanto, há diversos riscos como a desinformação sobre a forma correta do preparo de determinadas drogas, o fato de que algumas plantas são cultivadas e processadas fora dos padrões técnicos exigidos, o desconhecimento de sua toxicidade e interações que podem ocorrer.

Nathália: O que faz uma erva se transformar em remédio? E seus efeitos naturais quando combinados com química, são potencializados?

Cid: Entendo que remédio é um preparo caseiro sem nenhuma padronização. Um chá feito em casa, por exemplo. Quando há tecnologia, desenvolvimento, ensaios clínicos e eficiência e segurança, é um medicamento. Em geral, extratos e infusões de plantas medicinais devem ser usados sem a combinação de medicamentos químicos, pois pode haver interações medicamentosas e não potencialização.

Nathália: Os chás feitos pelas avós em casa podem ser considerados “remédios” medicinais?

Cid: Sim, esses são os verdadeiros remédios. O que é estudado e processado são medicamentos.

 Nathália: Há uma especialidade no estudo das ervas medicinais? O termo ‘produtos naturais’ pode ser entendido também por “ervas”?

Cid: Nas Ciências Farmacêutica existe uma disciplina específica que trata do estudo das drogas vegetais, que é a Farmacognosia. Produtos naturais é um termo mais amplo, usado até para substâncias químicas isoladas de plantas, como até mesmo um chá de camomila.

Nathália: Você apoia o uso das ervas medicinais? Acredita que um dia essa nova forma de medicar, se é que posso pontuar assim, pode vir a se tornar popular no Brasil? E como a China que faz uso constante de ervas, há outros países do seu conhecimento que o faz?

Cid: Eu acredito em plantas medicinais assim como todos os estudiosos e pesquisadores de produtos naturais. No entanto, entendo que as plantas hoje nos fornecem bons protótipos para novos medicamentos. Não acredito que um dia todos serão tratados apenas pelo uso de plantas medicinais. A Medicina Tradicional Chinesa é complexa e existe há milhares de anos, não dá para comparar. Além disso a TCM não se utiliza apenas de plantas, mas de materiais oriundos de animais, insetos, etc. A Alemanha é um pais onde a Fitoterapia é bem desenvolvida, mas os medicamentos são bem padronizados e estudados como um medicamento sintético.

Nathália: A Homeopatia está dentro da medicina alternativa? Quais seus benefícios e malefícios? Quando pode ser usada?

Cid: A homeopatia é uma medicina alternativa, mas uma ciência à parte. É uma forma contrária de diagnosticar e promover a cura de enfermidade diferente da alopatia. A Fitoterapia ou o uso de plantas é do sistema alopático, como os medicamentos sintéticos. A homeopatia é diferente. Não é apenas “quando ela deve ser usada”, mas é uma opção do paciente de se tratar por meios homeopáticos e não alopáticos.

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